sábado, 26 de maio de 2012


Café

Espiral de energia

Explosão silenciosa
Do prazer

Yèvre-le-Châtel
26 de Junho 90

Alberto de Lacerrda

Alfred Musset - Sei muito bem que neste mundo há calamidades que eu não poderei evitar; lamento as que não conheço, mas se sei de alguma devo tentar minorá-la. Por mais que faça, é-me impossível ficar indiferente perante a dor. - Mimi Pinson
CONSOLO NA PRAIA

Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te -- de vez -- nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Albino Forjaz de SampaioPratica sempre o crime, consciente, reflectido, dissimulado. Sê sempre mau e faz sugerir aos outros que és bom, sê sempre torpe dizendo-te honesto. Nada de violências. Hipócrita, cauteloso e subtil, conseguirás tudo, serás tudo, terás tudo. Uma hora de amor duma casada, uma condecoração, um emprego, a confidência dum segredo que compromete, dum vício que aviltece. - Palavras Cínicas


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Amanhãs que cantam. Para lá, Tomorrow never knows, última faixa do cd dos Beatles, Revolver; para cá, ponho a tocar Tomorrow Is the Question, de Ornette Coleman. Temas gravados em 1966 e 1959, respectivamente. Ouvir hoje música de ontem, sendo ainda hoje música de amanhã.
Foi já num tempo doce cousa amar,
Enquanto me enganava a esperança;
O coração, com esta confiança,
Todo se desfazia em desejar.

Oh! vão, caduco e débil esperar!
Como se desengana uma mudança!
Que, tanto é mor a bem-aventurança,
Tanto menos se crê que há-de durar.

Quem já se viu contente e prosperado,
Vendo-se em breve tempo em pena tanta,
Razão tem de viver bem magoado;

Porém, quem tem o mundo experimentado,
Não o magoa a pena nem o espanta,
Que mal se estranhará o costumado.

Luís de Camões
NÚRIA

A lentamente bela bruxa cisne magro
A lentamente mate cor do pão de trigo
A lentamente Núria de navalha e ligas

Ah lentamente o corpo se compara ao cubo
e muda as asas quentes em arestas frias!
Mãos vestidas de roxo a festejar tristeza
em Sexta-feira Santa d'oração medonha!

Ah lentamente a Espanha em procissão nas ruas,
cabelos desgrenhados mais guitarras nuas!
Ah Núria, rosa-névoa, lâmina de pétalas
a recortar raízes dos meus olhos d'húmus!

Ah lentamente lentamente aponto e estico
o arco: assobia a flecha no teu flanco
e, de repente, no meu sangue flui um barco

Paço d'Arcos, 13.X.72

António Barahona

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Raul Brandão e Júlio Brandão -- [...] o mundo ri-se, põe-se a rir do que não entende e magoa e até mata... Ri-se do que é elevado, ri-se do que é sagrado! -- A Noite de Natal
Glásgua -- é uma cidade da Escócia.
Eugénio de Andrade - Era um dos mais formosos lugares da nossa costa, tudo ali convergia para a perfeição: a luz, esta juvenil e orvalhada luz do sul que foi sempre a minha; o mar antigo, às vezes de safira transparente, às vezes brutal de paixão ou de cólera; a vegetação chã a caminho da falésia, que se vai adensando e crescendo à medida que o olhar se distancia; o inverosímil perfil crepuscular da Serra de Sintra; o silêncio só raramente quebrado por um carro, cujo ruído depressa se extinguia -- pois quem poderia fugir ao feitiço de um lugar assim? - «Cumplicidade Feliz»
João Gaspar Simões

Jorge Luis Borges - Ler, para já, é uma actividade posterior à de escrever: mais resignada, mais cortês, mais intelectual. - História Universal da Infâmia
Já se deram conta do balanço dos Quartetos com Piano de Brahms?
Mario Vargas Llosa - (...) a matéria-prima da literatura não é a felicidade mas a infelicidade humana, e os escritores, tal como os abutres, preferem alimentar-se de carne putrefacta. - História Secreta de um Romance

terça-feira, 22 de maio de 2012

A febre volta, e demora-se. / Nada podes contra os desígnios da carne mortal.

José Agostinho Baptista

RORY GALLAGHER: FOLLOW ME

A voz
grave, quase gutural,
amacia cada riff
dedilhado com nervo,
como se a vida se esvaísse
das cordas daquela fender.

Puro malte irlandês.

21-VI-2003