Simca 1000
terça-feira, 29 de maio de 2012
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princípio do prazer
à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto
no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio
trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro
seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava
e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.
à sua volta os pombos cor de lava
nos arabescos pretos do basalto
e gente, muita gente que passava
e se detinha a olhá-la em sobressalto
no seu olhar havia uma promessa
nos seus quadris dançava um desafio
num relance de barco mas sem pressa
que fosse ao sol-poente pelo rio
trazia nos cabelos um perfume
a derramar-se em praias de alabastro
e um brilho mais sombrio quase lume
de fogo-fátuo a coroar um mastro
seu porte altivo punha à vista o puro
princípio do prazer que caminhava
carnal e nobre e lúcido e seguro
com qualquer coisa de uma orquídea brava
e nas ruas da baixa pombalina
sua blusa encarnada era a bandeira
e o grito da revolta na retina
de quem fosse atrás dela a vida inteira.
Vasco Graça Moura
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Vasco Graça Moura
MUNDO DE AVENTURAS
Uma pequena aldeia na planície arménia
nevoeiro matinal no porto de Dieppe.
O silvar agudo nos cimos dos Cárpatos,
um castelo solitário num lago escocês.
Um junco chinês no mar do Japão,
um trilho de camelos na Rota da Seda.
Um catre vazio no mosteiro da Arrábida
uma via romana na serra do Gerês.
Uma mesa de cozinha e odores de Outono,
um eucaliptal onde brinco com o Avô.
O último número da revista tão esperada,
despojos da infância que se me acabou.
Sintra, 21 de Março de 2001
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Ratos e Homens
But if the while I think on thee, dear friend / All losses are restor'd, and sorrows end.
But if the while I think on thee, dear friend / All losses are restor'd, and sorrows end.
Shakespeare
No Bosque Proibido, romance de Mircea Eliade, Stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do Metro. No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de Shakespeare, que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam. Os Sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos ceús. Nessa espécie de esgoto, a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.
No Bosque Proibido, romance de Mircea Eliade, Stefan refugiou-se do blitz londrino nas estações do Metro. No bolso levava sempre uma edição dos sonetos de Shakespeare, que lia obstinadamente enquanto as bombas caíam. Os Sonnets preservavam-no da ameaça lançada dos ceús. Nessa espécie de esgoto, a poesia fazia a diferença entre ratos e homens.
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A Song Before Sunrise - Quando o jovem maestro Thomas Beecham resolveu trabalhar a música serena e aparentemente idílica do seu compatriota Delius, este, residente em França, era pouco conhecido dos melómanos britânicos, situação que seria alterada pelo futuro grande regente. Leio numa passagem do último secretário de Frederick Delius, Eric Fenby (citado num livreto da série «Great Recordings of the Century», A Voz do Dono), que o maestro se deixou impregnar pela poética do seu compositor de eleição, nunca o consultando por julgar que não carecia dos conselhos do criador. E parece que tinha razão ao tomar essa atitude de distanciamento: segundo Fenby, quando Delius ouvia a sua música executada em directo na rádio sob a batuta de Beecham, costumava dizer: «Perfect, Thomas, perfect».
Setembro 2005
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Thomas Becham
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Candido Portinari
Corre, dijo la tortuga
Dejame solo conmigo,
con el intimo enemigo
que malvive de pensión
en mi corazón.
Dejame solo conmigo,
con el intimo enemigo
que malvive de pensión
en mi corazón.
Joaquín Sabina
Graça Pina de Morais - a gentileza é sem dúvida uma qualidade da alma.- A Mulher do Chapéu de Palha
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SONETO DE AMOR
Tantos passaram pelo teu caminho
Antes que fosse a hora de eu passar
Que tenho a dor de me não ver sozinho
Na memória fiel do teu olhar.
Nenhum te disse frases de carinho,
Nenhum parou, talvez, para te amar...
E vão perdidos no redemoinho
Da Vida e nunca mais hão-de voltar.
Para ti, nenhum foi o mesmo que eu...
-- Mas porque a tua vista os abrangeu
Mesmo sem alegria, amor ou fé,
Deles alguma cousa em ti existe
-- Alguma cousa que me deixa triste
Porque não posso adivinhar o que é!...
Tantos passaram pelo teu caminho
Antes que fosse a hora de eu passar
Que tenho a dor de me não ver sozinho
Na memória fiel do teu olhar.
Nenhum te disse frases de carinho,
Nenhum parou, talvez, para te amar...
E vão perdidos no redemoinho
Da Vida e nunca mais hão-de voltar.
Para ti, nenhum foi o mesmo que eu...
-- Mas porque a tua vista os abrangeu
Mesmo sem alegria, amor ou fé,
Deles alguma cousa em ti existe
-- Alguma cousa que me deixa triste
Porque não posso adivinhar o que é!...
João de Barros
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GATO
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Alexandre o'Neill
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Imposicão -- Os grandes livros são aqueles que nos forçam a escrever.
AS TIME GOES BY
Como o tempo passa
enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois à taça
o que, afinal, sou eu só
-- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
Como o tempo passa
enquanto ficamos sós...
Passamos nós pelo tempo
ou passa o tempo por nós?
Bebamos os dois à taça
o que, afinal, sou eu só
-- ambígua raiva, duelo,
dualidade num só.
Fernando Tavares Rodrigues
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domingo, 27 de maio de 2012
CONDIÇÃO
Não há deus que resista à iniquidade dos homens.
Não há deus que resista à iniquidade dos homens.
A PALAVRA
Só conheço, talvez, uma palavra.
Só quero dizer uma palavra.
A vida inteira para dizer uma palavra!
Felizes os que chegam a dizer uma palavra!
Só conheço, talvez, uma palavra.
Só quero dizer uma palavra.
A vida inteira para dizer uma palavra!
Felizes os que chegam a dizer uma palavra!
Saul Dias
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José Bacelar - O «homem» de todos os tempos acaba sempre por surgir por debaixo de todas as ideologias. - Arte, Política e Liberdade
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H. D. Thoreau
sábado, 26 de maio de 2012
John Galsworthy - Um homem pode vacilar durante semanas e semanas, consciente, subconscientemente, mesmo em sonhos, até que chega um momento em que a única coisa impossível é continuar a vacilar.- O Primeiro e o Último
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Raymond Macherot
GOESA
Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
Sophia de Mello Breyner Andresen
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quase que os pude ouvir
DE CORPO INTEIRO
Para o Eduardo Lourenço
Era só não amar que não podia
o rio certas cidades ruas a infância
e a espanha de george orwell e outra frança
línguas mortas e estrelas que nasciam
despedaçado em quantas não sabia
partes de si de corpo inteiro ou campos
onde o mundo flutuava ao fundo e em branco
de novo na distância desabrida
que os dias idos sem fim iam rasgando
de regresso à sua frente enquanto havia
em cada rio sempre outra encruzilhada
lá onde morria o seu amor de tanto
querer sem resto arder em quanto amasse
pois era não amar que não podia
Para o Eduardo Lourenço
Era só não amar que não podia
o rio certas cidades ruas a infância
e a espanha de george orwell e outra frança
línguas mortas e estrelas que nasciam
despedaçado em quantas não sabia
partes de si de corpo inteiro ou campos
onde o mundo flutuava ao fundo e em branco
de novo na distância desabrida
que os dias idos sem fim iam rasgando
de regresso à sua frente enquanto havia
em cada rio sempre outra encruzilhada
lá onde morria o seu amor de tanto
querer sem resto arder em quanto amasse
pois era não amar que não podia
Miguel Serras Pereira
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João Pedro de Andrade - Luís contava anedotas pícaras sem dizer uma palavra menos correcta. As mulheres guinchavam de gozo, encostavam-se-lhe aos ombros gemendo de prazer, até que ele, com uma palavra cortante, as punha a distância, como quem recusa a um cão o bolo com que o atraiu. - A Hora Secreta
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