sábado, 2 de junho de 2012

Magical Mistery Tour
O SONHO SEM DESTINO

Se os caminhos são breves
e os dias tão compridos,
e as tuas mãos mais leves
que a espuma dos vestidos;

se é de ti que me ondeia
uma brisa subtil...
E a vaga diz: -- Sereia!
E o sonho diz: -- Abril!

Se cresces e dominas
os campos que acalento,
e inundas as colinas
de fontes que eu invento;

se tens na luz dos olhos
o misterioso apelo
das cidades de fogo,
das cidades de gelo;

se podes bem guardar
na tua mão fechada
o meu altivo Tudo
e o meu imenso Nada;

se cabe nos meus braços
a bruma que tu és,
e em algas e sargaços
te abraço nas marés;

se, puro, na presença
da nossa grande Casa,
pões na voz de horizonte
um lume de asa e brasa.

Não sei porque te sonho
na sombra matinal,
e ao meu lado te vejo,
real e irreal.

Sabeis -- adaga fria,
que ao meu peito cintilas --
onde se oculta o dia
das aragens tranquilas?

Se tudo sabes, mata
com dedos de oiro fino,
ou com gume de prata,
o sonho sem destino!


Natércia Freire
APARIÇÃO

Tem sobre a música certas vantagens
E nunca me dirigiu a palavra

Tem os dedos longos
Os olhos rasgados
Um perfil que transformou a sala onde eu estava
E nunca me dirigiu a palavra

Tem os cabelos louros
Angelicamente revoltos
E nunca me dirigiu a palavra

Tem dezoito anos
Ou dezassete anos
E nunca me dirigiu a palavra

Tem um olhar profundo e natural
De rio sem grandes acidentes
Tem o olhar directo
E nunca me dirigiu a palavra

Tem os gestos mais belos que eu sonhei
Antes de ver os seus gestos
Tem a graça da luz de Maio
Tem qualquer coisa de Maio que a Primavera esqueceu
Tem os ossos do rosto cinzelados
Duma forma que teria perturbado
Fídias e perturba certamente
Todos os dias o ar a luz a noite e o dia
E nunca me dirigiu a palavra

Agita quando anda
Os mantos do invisível
E nunca me dirigiu a palavra

Tem uma voz incomparável
Tem uma doçura de ave no olhar
E nunca lhe dirigirei uma palavra

25.5.62

Alberto de Lacerda
As palavras são como as mulheres: há que saber pegar nelas da melhor maneira. O que nem sempre sucede.
Giorgione, Concerto Campestre
2.º SOLILÓQUIO

Quem saberá o que vale a pena
Se os mortos se amortalham em segredo;
E o que dos astros vem nada diz,
E os vivos ignoram ou escondem,
Para além da curva do céu,
O que nem o tempo nem o amor
Pode sarar.

Ah, se a morte vale a pena,
Nem os mortos o dizem!
E mudos são o pranto e o luto
E a flor que dedos convencionais desfolham
No mausoléu impessoal e réplica d'outros.

E a Morte,
Como primavera de negro, dominando o pomar,
Ano após ano,
Nada responde


Tomaz Kim
Visconde de Meneses, Retrato da Viscondessa de Meneses

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Amanhece
e no espreguiçar dos olhos
absorvo a tontura do novo dia

Ao sair do quarto
atravesso o branco sujo da manhã
tropeço na claridade da primavera
e vou tomar café com muito açúcar

Levo um pastel de Tentúgal para a varanda
e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade

E quando tu chegas de roupão
bebendo o teu cacau
explico-te num gesto amplo de incertezas
o horizonte com barcos


Daniel Maia-Pinto Rodrigues

Christo Saprjanov - A morte adora os homens e os homens adoram a morte, ou deveriam fazê-lo. Torna-os mais homens do que os que estão vivos, com os rostos mais brancos, o cabelo mais negro e os corpos mais pesados. Na verdade, é uma pena estarem mortos. Fome de Cão
piazzión

olhos de veludo
voz de veludo
boca de veludo
Nathan Altman, retrato de Anna Akhmátova (1914)



HURRAH! Os olhos eram inexpressivos, mas a matrona tchetchena estava alegre como há muito lhe não sucedia. Encontrara finalmente o cadáver do neto. Tinha treze anos e brincava no jardim com as irmãs quando os russos passaram, e decidiram cortar pela raiz o potencial terrorista.
28-VI-2003
Ferreira de Castro - O navio agora saía da barra: -- balouçava-se já sobre o crespo líquido do oceano.
E Cascaes, adormecida, vergastada pelo mar, dir-se-ia uma dessas povoações de pescadores que, vistas de noite, parecem cemitérios devastados. A Boca da Esfinge

CAFÉ DE PENUMBRA

Escasso como a praceta defronte,
como a ilha, como o céu estrangulado
pelo aperto dispneico das vielas.

Café de penumbra e pouca gente
antiga e parecida ao tédio da manhã.
Três funcionários públicos (guarda-
-fiscal um) e dois empregados
comerciais debitando sentenças
em surdina. Um pracista
à míngua de clientes e o lazer
de um poeta de passagem.

Na mesa dos fundos, sob o claro
quadrilátero da janela -- e para nossa
edificação -- um arabista paulatino
traduz do francês um texto urdu.


Rui Knopfli
Fiat 600 D

Guy Debord - No reduzido número das coisas que me agradaram, e que soube fazer bem, aquilo que por certo fiz melhor foi beber. Embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais que a maior parte das pessoas que bebem.
Panegírico
Almada Negriors, retrato de Fernando Pessoa

Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias illuminadas
E cada um sabendo do outro só que ha vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.


Fernando Pessoa / Álvaro de Campos
Resignação Estudos, ensaios de leitura crítica, antologias e recolhas epistolográficas -- tudo isso damos à estampa. Falta-nos, porém, o talento do criador.
FRANJA

A franja esconde
-te os olhos grandes.
O vestido justo molda
-te as coxas exuberantes,
tão descaradas como
os teus grandes olhos
escondidos pela franja.

VI-2003
Goethe - A nós não seduziram as majestosas fachadas, / Nem a varanda elegante, nem o sóbrio pátio. / Por elas passámos apressados, e foi uma porta baixa e estreita / Que acolheu o guia, que acolheu o desejoso. Erotica Romana
Kate Bush, The Dreaming