sexta-feira, 8 de junho de 2012

ANIMAIS

animais, no silêncio com que comemos
animais, na marcação do território
e animais, desafiados por um olhar

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Nos teus olhos grita o fogo
Das grandes paixões. E assim,
Meu coração, lá caído,
Foi chama -- e cinza, por fim!


Eduardo Salgueiro
una mujer desnuda y en lo oscuro
es una vocacíon por las manos
para los labios es casi un destino
Mario Benedetti
Stig Dagerman - Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte, certa. Não me coube em herança um qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. A Nossa Necessidade de Consolo É Impossível de Satisfazer
Murillo, Uma Rapariga e a Sua Duenna
´
Joaquim Rodrigo, S. M.
A PALAVRA INESPERADA

do estômago sobe-me a palavra inesperada
entre a língua destravada e o palato força-me
a boca desabusada desesperada
rasteira-me a mão e cai
sobre o papel
estatelada
13-VI-2003/
/19-XII-2005
eu (2006)
o Batman de Neal Adams 
A CORRENTE

Lá vão as folhas secas na corrente...
Lá vão as folhas soltas das ramadas...
Hastes envelhecidas e quebradas
galgando as asperezas da vertente.

A cheia arrasa os frutos e a semente,
a terra inculta, as várzeas fecundadas,
e vai perder-se ao longe, nas quebradas,
numa fúria cruel e inconsciente.

Em nós ainda é mais funda, ainda é mais vasta,
esta ansiedade enorme e sem perdão,
que nos fere, nos tolhe e nos devasta...

As árvores desprendem-se e lá vão...
Mas nós ficamos porque nada arrasta
as raízes fiéis dum coração.


Fernanda de Castro
Tólstoi - Uma verdadeira obra de arte apenas pode surgir ocasionalmente na alma dum artista, como fruto da própria existência, da mesma forma que a gestação duma criança se faz no ventre da sua mãe. Mas a arte de contrafacção é produzida por artífices e por artesãos continuamente, cujo destino concebível será o dos consumidores. O que É a Arte?
Eduardo Viana, K4 Quadrado Azul

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Nelly O'Brien
À TUA ESPERA

Tranquila e serena
a nossa casa
nos quatro cantos
o sol do meio-dia

à tua espera alegre
e descansada
injecto-me de amor às
escondidas

Sobre a garganta passo
os dedos espessos
e a roupa uma a uma
vai caindo

para que então amor
com os teus dedos
quando vieres me vás
depois vestindo
Maria Teresa Horta
The Chokin' Kind

sábado, 2 de junho de 2012

escreves escreves escreves escreves
nada do que dizes rompe a superfície do papel
escreves escreves escreves escreves
entre o panache e a autocomiseração
o artifício e a louvaminha
o lacrimejar e a traição
escreves escreves escreves escreves
e tudo quanto escreves escreves escreves
escreves tem o selo de validade para hoje
promoção de último modelo
gravata de saldo
embuste de tablóide
passatempo de televisão



30-X-2003
Imitamo-nos uns aos outros. Alguns têm o talento de tornar a cópia pessoal, quase tudo parecendo arrancado das entranhas. Há quem assuma a paráfrase reverencialmente, com bibliografia vasta e notas de rodapé; e também há os que produzem meras contrafacções. Aos mais afortunados reconhece-se-lhes um veio intertextual.
CLARIDADE

O barulho de existir:
um cão
dentro de mim.

Atravesso
como a um pátio
o barulho de existir.


Carlos Nejar
Louis Armstrong Plays W. C. Handy
CÃO

os dias passam por ele
sem que ele dê pelo passar dos dias por ele
adoece e não sabe que é o fim
abana a cauda e sucumbe
ao tiro no crânio
sem espanto
à injecção letal
em paz
27-I-2003
NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gin, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era, no gira-discos, o «Martírio
de São Sebastião», de Debussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...


David Mourão-Ferreira

Teixeira de Queirós - Tinha o ofício de alfaiate e trabalhava assiduamente. Excelente mestre; boa tesoura e um ponto para a eternidade. «O Tio Agrela», Os Meus Primeiros Contos