terça-feira, 12 de junho de 2012

MEMÓRIA

nunca escrever
lábio a lábio
ou sílaba a sílaba
nem
rente ao que quer que seja
nunca falar
das zínias
e das tílias
(e agora também do hibisco)
fugir
do levedar
e do lêvedo

28-V-2003
Retrato de Jovem Veneziana
Cinco Minutos de Jazz -- 40 Anos (2006)
caricatura: André Carrilho
REDUNDANTE

Viena d'Áustria

Veneza d'Áustria

Viana d'Áustria

Viana do Castelo d'Áustria
SESTA

SESTA

Dentro do bosque
os passos dum caçador.
Dentro da sombra
a cobra do calor.

E dentro do meu sono
outro sono maior.

Estalando as folhas secas
vai a cobra invisível.
Nas mãos do caçador
ainda a vida é plausível.

Só dentro do meu sono
toda a morte é possível.


Carlos de Oliveira
Repasto Frugal
Tal como Gramsci e a sua mãe, o único paraíso que concebo situa-se no coração dos meus.
Praça em La-Roche Guyon
Ferreira de Castro - A sua voz parecia escorregar por um precipício, ao mesmo tempo urgente e tímida. - A Missão
INCONSTÂNCIA

A Aquilino Ribeiro


Tenho, às vezes, vontade de deixar-te.
E tenho, às vezes, medo de perder-te.
Não sei, às vezes, se hei-de abandonar-te,
Não sei, às vezes, se hei-de mais prender-te.

Por mais que queira, às vezes, esquecer-te,
Por mais que entenda, às vezes, ignorar-te,
Sinto o desejo enorme só de ter-te
Junto de mim na ânsia de abraçar-te.

Por mais que feche os olhos p'ra não ver-te
Ainda te encontro mais por toda a parte,
Tenha embora vontade de esconder-te.

Vivo nesta tortura de buscar-te,
Nesta inconstância atroz de não querer-te,
-- Meu fugidio sonho da minha Arte.


Alexandre de Córdova
A Estalagem da "Mère" Anthony
VEM

Já somos nada
quando a morte nos persegue.
Esperamo-la, implacável,
com o anúncio dos primeiros sinais.


2001
Raul Proença, por Fresno (1926)


segunda-feira, 11 de junho de 2012

sábado, 9 de junho de 2012

Manuel Poppe - Eugénia esfrega os braços --  [...] Era um desgraçado?
Artur -- Pior que isso: era um homem que a vida não deixava em paz.
A Aranha
Vénus Adormecida
Noite Estrelada
ANSIEDADE

A Rui Galvão de Carvalho

Escrevo e sofro... Em cada verso inteiro
Fica-me a alma entre um soluço e um ai...
-- Eu molho a pena, sim, no meu tinteiro,
Mas é do coração que a tinta sai!

Na carne dos meus versos, reparai,
É que eu me vejo e sinto verdadeiro.
-- Neles prendesse a vida que se esvai
E o meu fim não viria tão ligeiro!

Ah, nunca mais morrer! Ambição louca!
Ser imortal, andar de boca em boca,
Nos versos que componho -- anseio atroz!

Desse às palavras o meu sangue quente:
-- Já que viver não posso eternamente,
Eterna, ao menos, ficaria a voz!


Rebelo de Bettencourt
DROMEDÁRIO

Sob o crescente de lua,
A alma estagna. O céu consente
(Sem o sonhar ou saber)
Que em minha alma possa haver
Um tão possível oriente.

É-me o sonho o que é negado.
É-me verdade o que crio.
Minha alma é seco areal
E no fundo olhar sorrio
Rumos de febre e coral...

E tu, ó dama da noite
Milenária, que halo te cerca
De enigma a vigília pura?
Dons de unânime ventura:
Morre o sonho quem te perca...

Verdade ou sonho? Que importa
Ao morto olhar o rumo incerto.
Eu sigo o sonho (e cismando!)
Do dromedário pisando
Silêncios do meu deserto...


Luís de Montalvor
Jean-Luc Nancy - A poesia é, por essência, mais do que e algo de diferente da própria poesia. Ou antes: a própria poesia pode encontrar-se onde não existe propriamente poesia. Ela pode mesmo ser o contrário ou a rejeição da poesia, e de toda a poesia. A poesia não coincide consigo mesma: talvez seja essa não-coincidência, essa impropriedade substancial, aquilo que faz propriamente a poesia. Resistência da Poesia
Interior em Nice
As bibliotecas públicas não aguentam os nossos livros.
Auto-retrato com Banjo
Cheap Thrills