segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

     À margem do rio Volga existe uma cidade antigamente chamada Tsaritsin. Sua história é bela como uma legenda antiga, é heróica como o som de uma clarinada. Foi ali que Stálin barrou o caminho das tropas invasoras em 1918. Os comunistas, ao contrário dos capitalistas, acreditam no homem, acreditam nos trabalhadores, acreditam no povo e contam com êle nos seus cálculos políticos e militares. Os trabalhadores souberam defender a frágil criança que era a Revolução, souberam garantir o crecimento do arbusto que era então o Estado soviético. Tsaritsin deixou de se chamar assim, ganhou um nome simbólico de vitória: Staligrado. As

Jorge Amado, O Mundo da Paz, 4.ª edição, Rio de Janeiro, Editorial Vitória, 1953, p. 25, ls. 1-12.
votos - Espero que o Prémio Nobel da Paz, muito justamente atribuído à União Europeia, não venha demasiado tarde. Como já escrevi, o Comité Nobel quis distinguir uma ideia e um projecto único, e alertar para a importância do que politicamente foi conseguido no último meio século. Em face da crise actual, só há duas possibilidades: ficar tudo como está, o que terá como resultado, em agonia mais ou menos lenta, o fim da UE; ou uma nova etapa, confederal, para o que será preciso uma prévia e significativa reforma institucional, que reponha uma paridade (mais teórica que real, mas formalmente existente) já definitivamente, na prática, perdida.
Não confundo a Comissão Europeia em funções com a União (seria o mesmo que confundir um governo em funções com o país que o governa); mas espero bem -- e a bem da UE -- que não se lembrem de que um dos recipiendiários (!) do Nobel foi anfitrião na vergonhosa cimeira que precedeu a guerra criminosa no Iraque e cujos principais protagonistas foram 2 miseráveis & 1 pateta, cujos nomes, em especial os dos miseráveis, nem sequer escrevo por repugnância.

domingo, 9 de dezembro de 2012

     -- Francisco! Velhaco, estúpido, biltre, macaco sem rabo, anda cá! Ao menos uma vez na vida, serve-me para alguma coisa!
     Francisco aproximou-se, importante e solene.
     -- Falas o francês mas deves falar muito bem o árabe, e vais servir de intermediário entre mim e estas senhoras. Elevo-te à dignidade de intérprete; antes de mais nada, pergunta às duas belas estrangeiras quem são, donde vêm e o que querem.
     Sem reproduzir os esgares de Francisco conduzirei a conversação como se ela tivesse sido em francês.
     -- Senhor -- disse a turca, pela boca do negro --,

Théophile Gautier, O Cachimbo de Ópio [seguido de «A milésima segunda noite], trad. Maria Luísa Rodrigues, Lisboa, Rolim, s.d., p. 25, ls. 1-12.
Da pequenez -- Roço-me preguiçosamente pela blogosfera (e até pelo tantas vezes inane facebook) e vejo, em muitos que opinam sobre a coisa pública, a pequenez, o ressentimento, o verbo fácil (ou por vezes custoso) que fala do que julga saber, palavrório solto dos pequenos e grandes ressentimentos. Gente azeda e sem a grandeza ou a honestidade intelectual da tentativa da imparcialidade. É destino, sina minha, falta de jeito tropeçar constantemente nestes lamentáveis destroços de humanidade. Que a terra lhes seja leve.
   Julia

Lefranc -- Le Repaire du Loup (1970)

sábado, 8 de dezembro de 2012

apenas designadas por uma inicial de kafkiana universalidade, destinando o narrador para si a letra H, já que todo o nome acabado é um vazio. Pintor medíocre, dolorosamente consciente das suas limitações, H. recorre às páginas de um diário como meio de compreender as suas debilidades estéticas e de se compreender a si mesmo, quando aceita a encomenda de retratar S., administrador de uma companhia majestática, que deseja incluir-lhe a efígie na galeria dos seus deuses tutelares. Enleado numa banal rede de banais relações humanas e de casuais e previsíveis aventuras, H. sente a necessidade de pintar um segundo retrato

12 linhas da 25.ª página de «Os rumos da ficção de José Saramago», de Luís de Sousa Rebelo, prefácio à 2.ª edição de Manual de Pintura e Caligrafia.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Sem palavras - Joaquim Benite, Oscar Niemeyer, Dave Brubeck, Papiniano Carlos...
Palavra (?) - Se o Relvas diz que não houve pressão directa ou indirecta no saneamento de Nuno Santos, eu acredito, é claro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

José Saramago - «Que quero eu? Primeiramente, não ser derrotado. Depois, se possível, vencer.» Manual de Pintura e Caligrafia

Caligrafado por H., protagonista-narrador, alter ego do autor. Romance de 1977, poderia dizer-se de estreia, não fora a falsa partida de Terra do Pecado (1947), trinta anos antes... e o recém-editado Clarabóia (a ausência do acento agudo, tentarei percebê-la quando, e se, o ler).
Para já importa-me assinalar que de cerca de meia dúzia de títulos, entre poesia, conto e crónica, se fazia a obra de Saramago. Em 77, ao 55 anos, este não era ainda, sendo-o, o Saramago. Faltavam três anos para que a sua perseverança desse os frutos pretendidos pela personagem H.:  com Levantado do Chão (1980) o futuro autor do Memorial do Convento não só deixara de correr o risco de ser um derrotado, como pisara o primeiro degrau para o triunfo. E este Manual, como os que lhe antecederam, foi um alicerce.
Retrato de Kisling (1915)
col. particular, Milão


terça-feira, 4 de dezembro de 2012

números da crise - a venda de comerciais ligeiros recuou para números de finais da década de 1970 (lido aqui). Para mim não foram anos maus, mas remediados. Sempre doce e medíocremente apaziguado.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Os embaixadores israelitas em Londres e Paris foram chamados aos respectivos ministérios dos Estrangeiros. Em causa a má-fé de Netanyahu e do seu governo, ao anunciarem a construção de mais três mil colonatos nos territórios ocupados, depois da derrota diplomática estrondosa que foi o reconhecimento da Palestina como estado pela Assembleia-Geral da ONU. Como não acredito que esta acção não tenha sido concertada, inclusive com o conhecimento (quem sabe se com o incentivo...) da Administração Obama,  eu creio que está na hora de os amigos de Israel o defenderem de si próprio, enquanto é tempo.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Mansuetude - Das razões que motivam a luta dos estivadores: se é por não quererem a desregulação das relações de trabalho promovida por este governo de selvagens dos mercados & patifórios excretados pelos aparelhos partidários, eu acho bem; se for por dignidade profissional, pelo amor-próprio que não se deixa levar como gado para o matadouro, acho ainda melhor. Entretanto, um bom texto de Raquel Varela.